Conexões, inovação e cultura

A criatividade como fio condutor das cidades do futuro

por: Pâmilla Vilas Boas

Avenidas padronizadas que ligam a cidade, ruas sem transeuntes, tudo em tom cinza e pastel. Podemos até imaginar que as cidades do futuro serão robóticas, frias, impessoais, sem vida, sem diálogos e sem criatividade. Mesmo que esse imaginário venha povoando a história da humanidade em filmes, seriados, livros etc, uma outra projeção de futuro também se faz possível. O arquiteto e designer Guto Requena prefere imaginar que, daqui a 50 anos, viveremos em cidades mais sustentáveis, verdes e que as tecnologias digitais não servirão para afastar as pessoas, pelo contrário, elas irão nos aproximar e nos aquecer. 

Ainda vivemos na era pré-histórica da tecnologia digital, principalmente nas cidades, e o que veremos no futuro será um crescimento exponencial dessas cidades hibridadas pelo digital, prevê Guto. “As cidades híbridas são compostas por uma estrutura analógica, concreta, adicionada de estrutura digital. É da soma desses átomos e desses bits que temos as cidades “, afirma.

O Love Project interpreta emoções e transforma em objetos únicos.

Já vivemos essa hibridização em aplicativos como o Uber, que transformou a lógica do transporte nas cidades, sistemas que regem todo o transporte e políticas públicas. “O impacto da tecnologia na área de políticas públicas é gigante. Tem um concurso chamado Conip (Congresso de Informática e Inovação na Gestão Pública) que premia iniciativas de política pública e tecnologia e vem apresentando ideias fantásticas. Ainda vivemos um momento muito inicial”, aponta. 

Não é só a cidade que está hibridizada de tecnologia, nossos corpos também estão. É por isso que Guto Requena entende que somos a primeira geração de ciborgues da história da humanidade, uma vez que nosso corpo orgânico está cada vez mais hibridado com próteses como, por exemplo, marca passos, olho biônico, perna mecânica e até mesmo o telescópio e o submarino que corrigem falhas orgânicas ou exteriorizam funções vitais. “De um lado o homem ficando mais maquínico e, por outro, as máquinas ficando cada vez mais orgânicas e humanizadas. Está, a cada dia, mais presente o uso de inteligência artificial, sensores que reconhecem presença, movimento, batimento cardíaco. Se quisermos falar de design e arquitetura é fundamental entender que há uma mudança gigante em nosso corpo  físico, cognição, maneira de receber as informações e se relacionar com o espaço”, avalia. 

O Estúdio Guto Requena criou uma série de imobiliários urbanos temporários em São Paulo para investigar
a interseção entre emoções, memórias, design e tecnologia digital.

Cidades criativas
A administradora, economista e pesquisadora Ana Carla Fonseca Reis, que escreveu a primeira tese de doutorado sobre cidades criativas no Brasil, aponta que a criatividade tem papel fundamental nessa proposta de uma cidade do futuro com melhores condições de vida para os cidadãos. Sobre a relação da tecnologia, Ana Clara explica que, muitas vezes, quando se fala em cidades inteligentes, geralmente há uma ideia de forçar uma solução tecnológica para só depois se lembrar de que ela será utilizada por pessoas.  “As cidades são para cidadãos inteligentes”, afirma.  

É nesse sentido que, para além de uma ótica de infraestrutura e grandes projetos, precisamos levar em conta essa parte mais software da cidade. “Você tem tanto aplicativos ou programas que fazem com que vizinhos andem pelas casas uns dos outros, ruas sociais e colaborativas até intervenções não mediadas pela tecnologia, como as hortas urbanas, para retomar uma lógica de comunidade que deu início à ideia de cidades na antiguidade e que as torna espaços mais conviveis”, ressalta.  

A pesquisadora defende que a cidade tem um sonho coletivo e a criatividade funciona como uma catálise para novas propostas de cidades, transformações de contextos e qualidades de vida. “As pessoas pensando juntas fazem com que as cidades sejam maiores do que as criatividades individuais”, aponta.

Quando começaram a discutir a proposta de cidades criativas – um termo que era ainda muito novo – Ana Carla convidou colegas de diferentes países para produzirem uma primeira sistematização mundial do conceito (Baixe o livro aqui). A partir desse estudo, eles perceberam que, independente das muitas variáveis e multiplicidade de realidades locais, uma cidade que se propõe criativa tem três características fundamentais: inovações, conexões e cultura. Não se tratam apenas de inovações tecnológicas, ressalta a pesquisadora, o termo também incluí inovações sociais, ou seja, novos olhares sobre determinado contexto. “Se você for para uma linha de altíssima tecnologia, você acaba excluindo todas as cidades que não são, pelo menos, de médio porte. 

A faixada interativa do hotel WZ Lorena se movimenta e permite
a interação do usuário com o edifício.

Quando falamos em cidades do futuro, não podemos considerar apenas as megalópoles. As  inovações têm que ser condizentes com os desafios e oportunidades de cada cidade. Nas periferias, por exemplo, existem muitas inovações ocorrendo que, necessariamente, não passam pela lógica da inovação tecnológica do ponto de vista digital. Inovação é como uma cidade ou território que se reinventa continuamente “, completa. 

No contexto das cidades brasileiras em que há inúmeras cidades em uma só, tornam-se ainda mais importantes as conexões entre pessoas e bairros, explica Ana Clara. “Para que uma cidade se beneficie, inclusive das inovações que ocorrem num lugar, é preciso fazer com que os bairros se conectem, para que as pessoas que moram numa região se sintam motivadas a transitar em outros locais. Às vezes a gente sai, encontra quem conhece e volta, com a ilusão de que a cidade é muito pequena, mas circulamos sempre nos mesmos lugares. Para que as cidades sejam inovadoras, criativas ou inteligentes elas têm que se valer do seu maior ativo que é a diversidade das pessoas que a compõe”, explica.

A cultura diz respeito à diversidade, identidade e memória. “Muito difícil pensar no futuro da cidade sem remeter ao passado dela”, afirma. Sem essas referências, as pessoas têm menos vínculo afetivo com o espaço. “A cultura e o patrimônio trazem esse lastro afetivo para pensarmos uma cidade do futuro que não seja pasteurizada”, concluí.

Um futuro de afeto
De que forma podemos adicionar tecnologias digitais e interativas no design e suas múltiplas escalas (produto, espaço, cidades) para construir uma relação de afeto, memória, pertencimento e amor com o usuário? Essa questão vem norteando o trabalho de Guto Requena na concepção de produtos, como o aplicativo Aura Pendant, parte do Love Project.

Você baixa o aplicativo, narra uma história de amor, ele interpreta sinais de voz e batimento cardíaco e transforma num pingente de ouro impresso em 3D. “Ele é único, não é baseado na moda e sim numa história de amor. Provavelmente será passado de geração a geração. Pensar no futuro da cidade e dos objetos sob esse viés é algo que nos interessa”, explica o designer ao falar do termo sustentabilidade afetiva.  Ele destaca que o mundo não precisa mais de uma cadeira, uma luminária ou uma mesinha padrão. Guto acredita que, quando se produz objetos carregados de história e memória, a ligação afetiva com o usuário possibilita um ciclo mais longo do produto. “Então, é pensar a sustentabilidade não só a partir dos materiais, mas também a partir dessas conexões emocionais. O futuro do design está muito mais relacionado ao desenho de interfaces e sistemas do que produtos”, revela.

Para o designer é possível se apropriar da arquitetura e das cidades criando sistemas plugáveis que podem alterar a função original do local.  Um exemplo é a faixada interativa do hotel WZ Lorena em São Paulo. A arquitetura já existia, o que eles fizeram foi transformar o uso original da faixada. Sensores instalados no edifício coletam a paisagem sonora do entorno. Outro grupo de sensores coleta a qualidade do ar do local, impactando na mudança de cores da “Criatura de Luz”,

uma obra de arte que se movimenta e permite a interação do usuário via aplicativo. O projeto fez parte da reforma total do antigo hotel, construído na década de 1970. “A função prática de um mobiliário urbano é sentar, proteger da chuva, fazer sombra etc e queremos adicionar essas camadas digitais para interagir com a arte e construir um outro sistema urbano. Pretendemos trabalhar mais com arte e elevar nossa expertise de dentro dos espaços para rua, fachadas interativas, mobiliário urbano, praças, parques e usar nossa energia criativa na rua”, conclui Guto.

Pin It on Pinterest

Share This