Diálogos públicos

Projeto Mural Templuz difunde obra de artistas nacionais

e internacionais em Belo Horizonte/MG 

por: Ana Cláudia Ulhôa e Pamilla Vilas Boas

Caminhando pela cidade vemos uma infinidade de coisas escritas nos muros. Mesmo quando não conseguimos compreender exatamente sobre o que se trata, percebemos que esses signos geram sentidos. As possibilidades de escritas são infinitas e com diferentes dimensões estéticas, como o grafite, desenhos, colagens de lambe-lambe e o projeto Mural Templuz que, a partir da plotagem de grandes imagens em um imenso mural, comunica e troca sentidos com os transeuntes.

Com uma proposta inovadora, o projeto Mural Templuz, em parceria com a Hipergraphic Digital, transforma um paredão de 5,30m de largura por 6,5m de altura em local de exposições a céu aberto em frente à Avenida Nossa Senhora do Carmo, em Belo Horizonte/MG.  Cerca de 100 mil pessoas transitam diariamente pelo local e têm a oportunidade de apreciar os trabalhos expostos.

Desde sua criação em 2011, o Mural difundiu o trabalho de profissionais das artes plásticas, designers, fotógrafos e profissionais das artes visuais bidimensionais que, muitas vezes, não estão inseridos no contexto das artes plásticas do país.

Este ano, o projeto selecionou 11 obras contemporâneas que serão expostas entre março de 2017 e fevereiro de 2018. Foram mais de 200 trabalhos inscritos, de artistas nacionais e internacionais. Os escolhidos se destacaram pela qualidade estética e pela adequação ao tema proposto, “Luz e Emoção”. Conheça, abaixo, a lista com os trabalhos contemplados. A ordem de apresentação, definida por sorteio, será a mesma usada para a instalação das obras.

Inverno em Pingayao – Ana Luiza Sampaio
A obra “Inverno em Pingayao” é uma fotografia da mineira de Belo Horizonte, Ana Luiza Sampaio, de 22 anos. A paixão, iniciada quando Ana era ainda criança, se divide hoje com os estudos do curso de Direito. Nesta imagem, a jovem busca retratar a antiga cidade chinesa de Pingayao na época de frio, quando os habitantes usam seus aquecedores a base de carvão vegetal para aquecer suas casa e lojas e acabam transformando a paisagem. Ana Luiza tem como objetivo utilizar a fotografia para analisar o cotidiano em diferentes contextos e a forma curiosa como o ser humano ocupa ou não os espaços.

“Todas as cores combinam no escuro”, Francis Bacon – Alberto Ferreira
A obra “Todas as cores combinam no escuro, Francis Bacon” é uma fotografia do mineiro de Corinto, Alberto Ferreira. O jovem de 22 anos cursa Administração de Empresas e só entrou no mundo da fotografia há dois anos e meio, quando comprou uma câmera e começou a fotografar paisagens e pássaros. O interesse por pessoas veio após usar a fotografia para superar um princípio de síndrome do pânico. Apaixonado por Fine Art, ele passou a usar a técnica para aprender coisas novas e observar o antes e o depois de seu progresso. A obra escolhida foi feita com uma amiga em uma cachoeira e enviada pelo artista por estampar perfeitamente a simplicidade e o tema Luz e Emoção.

Raios de Areia – Emanuel Batista de Paula
“Raios de Areia” é uma fotografia de Emanuel Batista de Paula. Mineiro de Belo Horizonte, o fotógrafo, de 36 anos, começou a fotografar há cerca de três anos, quando ganhou uma câmera semi profisional de aniversário. A partir daí, ele decidiu transformar o que inicialmente era um hooby em profissão e, atualmente, se mantém realizando fotografias conceituais de pessoas, como na obra selecionada.

Conversa de Pescador – Ana Luiza Sampaio
A obra “Conversa de Pescador” também é uma fotografia da mineira Ana Luiza Sampaio. Feita em Koh Yao Yai, uma pequena ilha do sul da Tailândia, durante o entardecer no fim do inverno, tem o mesmo objetivo da primeiro obra apresentada, retratar o cotidiano e a utilização do espaço pelo ser humano. Nesse caso, ela registrou pescadores da região, que chegam com seus barcos em um ponto próximo à praia e se reúnem para conversar.

JazzInTheCityLight – Braulio Mourão
A obra “JazzInTheCityLight” é uma ilustração/fotografia do mineiro de Belo Horizonte, Braulio Mourão. Formado em Designer Gráfico desde os anos 90, o artista de 55 anos se dedica a utilizar a tecnologia digital para descobrir e desbravar o mundo de opções que existem nessas ferramentas. A imagem escolhida foi criada após perceber que sua cidade natal tem se tornado bastante musical de uns anos para cá. “Amante da boa música e do jazz que sou, me veio em mente mixar/interpretar esse movimento nesta fusão de música noturna e jazz. Uns toques aqui e outros ali fizeram nascer JazzInTheCityLight, em referência às belas e sonoras noites de jazz nas ruas da Savassi e Praça do Papa, de minha querida BH”, afirma.

Tem gente que é iluminada – Ligia Fascioni
A obra “Tem gente que é iluminada” é uma ilustração/colagem da catarinente, de Florianópolis, Ligia Fascioni. Formada em engenharia elétrica, a artista de 50 anos mora na Alemanha e trabalha em uma startup. Em seu tempo livre, se dedica a desenhar e criar imagens como esta, que busca mostrar um mundo colorido e repleto de beleza. “Há pessoas que têm um sorriso contagiante, que iluminam tudo em volta. Penso que é o caso da moça desenhada; inspirada numa foto recortada em uma revista antiga que não tenho mais, ela brilha. Os cabelos são como os raios do sol, refletindo toda a energia boa. Ao fundo, um muro grafitado, expressão da criatividade humana, ou seja, mais luz”, explica.

Emana – Fernada Abdo
A obra “Emana” é uma fotografia da mineira de Belo Horizonte, Fernanda Abdo. Formada em Design de Ambientes, a artista de 30 anos começou a fotografar por prazer na adolescência. Só depois de sete anos de formada, Fernanda decidiu transformar a fotografia em profissão. Atualmente, ela se decida a clicar pessoas e artes cênicas. Na imagem escolhida, ela  buscou falar sobre luz, resistência e delicadeza. “A foto faz parte de um ensaio maior, feito com uma irmã de alma, uma pessoa por quem tenho respeito e admiração enormes. E, naquele momento, não a vi sendo banhada pela luz da janela, muito ao contrário: ela irradiava a luz que ascendia aquele vão rendado”, conta.

“Quando estou num palco, entre luzes a brilhar, eu me sinto um pássaro a voar, voar, voar” – Crystianne Rocha Jardim
A obra “Quando estou num palco, entre luzes a brilhar, eu me sinto um pássaro a voar, voar, voar” é uma fotografia da mineira de Coronel Murta, Crystianne Rocha Jardim. Com 34 anos, a artista se tornou fotógrafa profissional há um ano, quando concluiu um curso na área e começou a atuar. A imagem escolhida foi inspirada no curta metragem City of Dreams, no qual, sob as luzes de um teste de dança, a personagem brilha, mostrando a sua arte.

Pedra sobre pedra – Fábio Lobato
A obra “Pedra sobre pedra” é uma fotografia do paraense de Santarém, Fábio Lobato. Engenheiro de Computação por formação, o artista de 29 anos fotografa por hobby. A imagem escolhida foi feita em uma viagem à ilha de Corfu, na Grécia, para a apresentação de um trabalho. Foi “bem no período do referendo grego de 2015. Vi uma tristeza generalizada nas ruas, principalmente os aposentados nas filas dos caixas, por conta do limite de saque. Eram umas 8h da noite e eu estava voltando do local da conferência e me deparei com o sol se pondo. De manhã cedo havia feito um jardim de areia pra espantar o nervosismo pré-apresentação e pensei em amontoar as pedras e tentar fazer uma foto bacana. O resultado foi esse aí. A partir de então, esse é um dos papéis de parede que uso pra relaxar e lembrar que não importa o problema que tenhamos, o sol sempre estará lá pra nos lembrar que nada como um dia após o outro”, lembra.

Magia, movimento e cores – Wagner Assumpção
A obra “Magia, movimento e cores” é uma fotografia do sul-mato-grossense de Juti, Wagner Assumpção. Formado em Direito, o artista de 30 anos começou a se dedicar à fotografia há cinco anos e já possui trabalhos publicados em sites e revistas, como National Geographic, Superinteressante, Estadão e Fotografe Melhor. A imagem escolhida foi captada durante a apresentação da Ginástica Artística do Projeto Raio de Sol, na quadra coberta da Escola Municipal Carlos Chagas. “Fui fotografar o evento a pedido de um amigo. Já fui com a imagem na cabeça. O ambiente, tinha pouca iluminação, então pensei em fazer uma longa exposição da dança. Adorei o resultado, que mesclou o movimento das dançarinas com as cores de duas roupas”, diz.

União – Lucas Rafael
A obra “União” é uma fotografia do paulista de Leme, Lucas Rafael. Com apenas 19 anos, o técnico em processos fotográficos começou a fotografar em 2014, quando iniciou os estudos na área. Lucas se dedica a projetos autorais ligados à fotografia documental e contemporânea. A imagem escolhida visa mostrar a vivência e os costumes de determinadas famílias que, mesmo em pleno século XXI, ainda vivem em condições precárias. “As fotografias visam elevá-las a um grau de dignidade social as quais as mesmas nunca se imaginaram”, esclarece.

Arte Urbana
O que significa viver em uma cidade em que você pode ler tanta coisa diferente?  Para a pesquisadora das escritas das ruas, Milene Migliano, doutoranda em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal da Bahia, é nesse ponto que a iniciativa da Templuz pode ser colocada em discussão com a Arte Urbana. Para ela, o projeto troca sentidos com as pessoas que produzem e participam do espaço urbano. “Não só quem produziu a obra, as pessoas que estão vendo também estão produzindo sentidos. O projeto agrega outras imagens que não estavam antes e que não são imagens de medíocre percepção, como no caso da publicidade”, avalia.

Para além dos museus e das galerias, diferentes formas de arte têm tomado o espaço urbano e modificado não só a paisagem das cidades, mas também a relação das pessoas com os lugares por onde transitam. Na contemporaneidade, o muralismo tem encontrado outras formas de expressão, como o grafismo, as plotagens gigantescas, entre outros. Mas, a história do muralismo não é recente. Ele foi cultivado nas civilizações grega e romana, embora  tenham restado poucos vestígios dessa prática, entre os quais se destacam os encontrados nas ruínas de Pompéia e Herculano. A técnica também foi muito empregada na Índia, nos murais das cavernas de Ajanta, e na China da dinastia Ming.

O artista Rogério Fernandes considera que está havendo um retorno às origens da arte.  “Na Grécia antiga não tinha isso de arte fechada em galeria. A arte foi feita para os espaços públicos. A gente não faz cultura em lugar fechado. Se isso acontece é dominação e segmentação de algo que foi feito para todo mundo apreciar. Agora, comprar uma obra de arte já é uma outra questão.  Mas é um direito entrar em contato com ela, apreciar, vivenciar. A arte tem que ser democrática”, completa.

O galerista Leonardo Salvo, sócio proprietário da galeria Urban Arts, em Belo Horizonte, conta que muitos artistas que expuseram no projeto Mural hoje fazem parte do coletivo da Urban Arts. Para ele, essa democratização impacta de forma muito positiva nas galerias e no mercado da arte como um todo.  Ele cita o exemplo do artista Ataide Miranda, que expôs na terceira edição do projeto Mural e, logo depois,  teve  várias de suas obras na galeria, inclusive a que participou do Mural.

“As pessoas se familiarizavam e quando batiam o olho percebiam que  já tinham visto a obra na Avenida Nossa Senhora do Carmo. Essa obra puxava a identificação do artista e a pessoa se sentia mais à vontade.  Aconteceu com a artista Thais Conde também. As pessoas sempre se lembram do quadro que esteve no Mural”, relata.

Saiba mais sobre o projeto e acesse à Coletânea de Arte Urbana na íntegra: www.projetomural.com 

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