Somos todos designers

Design como alavanca da economia criativa 

por: Pâmilla Vilas Boas

Assim como conseguimos diferenciar uma música angolana de uma finlandesa ou brasileira, é possível distinguir o design italiano do francês ou inglês. Isso é intrínseco ao produto, ao histórico da pessoa que o criou, do momento, estética da época, materiais disponíveis, modo de vida, necessidades estéticas… “ou seja, do famoso ‘como fazemos as coisas por aqui’, que podemos traduzir como cultura dentro da sua visão mais ampla”, afirma a especialista em economia criativa, colaboração e sustentabilidade, Patrizia Bittencourt, consultora de negócios culturais e criativos. Segundo ela, é justamente essa semântica cultural que distingue o design e o integra como parte importante da economia do intangível.

A pesquisadora destaca que, além de sua importância enquanto um produto cultural e um setor criativo, o design também é  uma abordagem potente para alavancar a economia criativa. Para ela, usamos o design como guia para criar coisas novas em qualquer área, seja um produto, uma metodologia, um serviço ou um discurso.  “Em tudo podemos ‘desenhar’ um modelo novo, e, quiçá, um novo padrão. Daí sua capacidade de transformação no questionamento de necessidades e tratamento de diversas questões humanas, como trabalha o design de serviços, o design centrado no usuário, por exemplo”, afirma Patrícia.

O Instituto A gente transforma desenvolveu projetos com
os índios Yawanawás na aldeia Nova Esperança.

Enquanto na cadeia produtiva padrão é somente no processo de criação que se agrega valor, ao colocar inteligência ou design no produto ou serviço – no caso da cadeia produtiva da economia criativa – é possível resolver um problema de maneira criativa em todos os pontos do processo: criação, produção, gestão, distribuição ou consumo. Sem o design, a maioria dos bens e serviços não existiria ou não conseguiria se diferenciar no mercado.

“Essa razão faz com que não seja possível tratar os setores culturais e criativos  da mesma forma como tratamos a indústria de transformação padrão. Eles devem ser pensados como criadores de valor, que transborda para além de limites normativos das profissões, setores, comunidades, cidades, países, tendo forte viés pautado no que emerge das interações entre as pessoas”, aponta.

As luminárias da Coleção estampam grafismos que
representam animais e elementos da natureza.

E, de acordo com o Sebrae, houve registro recorde, no comércio mundial, de bens e serviços criativos, de US$ 624 bilhões em 2011. Entre 2002 e 2011, esse valor mais do que duplicou no mundo. No Brasil, também em 2011, 243 mil empresas formavam o núcleo da indústria criativa, de acordo com a publicação: “O Design no contexto da Economia Criativa” .

O projeto com os índios Yawanawás resultou em uma linha de
luminárias que representa a sabedoria milenar do grupo.

Com base na massa salarial gerada por essas empresas, estima-se que o núcleo criativo gera um Produto Interno Bruto (PIB) equivalente a R$ 110 bilhões, ou 2,7% do total produzido no país. Esse valor chega a R$ 735 bilhões se considerada a produção de toda a cadeia da indústria criativa nacional, equivalente a 18% do PIB brasileiro. Apesar do impacto da economia criativa no Brasil e no mundo, Patrizia avalia que ainda falta muita articulação e incentivo para o desenvolvimento do ecossistema. Para a pesquisadora houve um abandono dos fomentos no âmbito federal, mas há certa municipalização dessa economia. “O que é ótimo! As cidades começaram a perceber essas mudanças e têm feito esse trabalho. Estamos no caminho, mas não vamos fazer nada sozinhos.

Há um viés da diversidade que é muito forte: quanto maior a diversidade de atores, mais rica e mais sustentável no tempo ela será”, diz.

A pesquisadora ressalta ainda que todos nós temos capacidade de ter ideias e transformá-las em ação, o que nos aproxima das funções do design. “Tem uma frase que diz: ‘a criatividade faz de todos nós designers’, pois o design tem uma função importantíssima que é solucionar problemas. Se melhorarmos nossas capacidades, nos tornamos um pouco designers. Acho sensacional o trabalho desse profisional, principalmente esse que vai olhar a fundo na realidade para achar soluções positivas”, completa.

Os objetos desenvolvidos no projeto com os índios Yawanawás propõe
uma nova forma de se relacionar com o fazer, produzir e o consumir.

Foco no usuário
Uma lâmpada que funciona pela gravidade e dispensa o querosene. A GravityLight, desenvolvida pelos designers britânicos Martin Riddiford e Jim Reeves transformou a vida das quase 1 bilhão de pessoas que ainda vivem sem energia elétrica no mundo. Lâmpadas de querosene ainda são utilizadas em áreas rurais, onde a distribuição elétrica não está disponível ou é ainda muito cara. A lâmpada foi considerada uma das 25 melhores invenções em 2013 pela revista Time

Martin relata que o projeto começou com o desenvolvimento de uma lâmpada solar na África. Nesse processo, eles perceberam que mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo precisa usar querosene para a iluminação.  “A iluminação solar é capaz de ajudar muitas dessas pessoas, mas nem todas, então nossa ideia de uma luz auto gerada nasceu e se apresentou como uma alternativa realista à iluminação de querosene para todos os usuários, independente de onde eles vivem,” relata.

Martin ressalta ainda que, embora a substituição de lâmpadas de querosene fosse o objetivo, apenas fornecer uma lanterna elétrica portátil não era a solução preferida pelos usuários.  “A maioria quer um sistema com fio, assim como os do  Ocidente, com várias luzes no teto. Os sistemas solares caros podem ser ajustados no teto, mas as lanternas solares baratas são luzes de mesa, não luzes da sala”, explica.

Como permitir que um peso levantado gere energia suficiente para iluminar uma sala? Para solucionar o maior desafio do projeto, eles desenvolveram um sistema composto de um gerador central, montado no teto, com uma luz ambiente embutida. O sistema usa uma bolsa cheia de pedras ou terra, anexado a um cordão, que desce lentamente, semelhante ao impulso de peso em um relógio de cuco. Essa ação alimenta a luz por até trinta minutos. Se quiser mais luz, basta levantar o peso novamente.

A equipe percebeu também que os usuários queriam que qualquer pessoa fosse capaz de levantar o peso, independentemente da força e altura. “Em resposta a isso, desenvolvemos um sistema de elevação que também tem o benefício de fornecer luz contínua, mesmo quando o peso está sendo levantado. A segurança sempre foi uma consideração importante também, uma luz vermelha brilha se houver muito peso na bolsa, e uma embreagem interna desliza se uma criança tentar balançar o peso”, ressalta.

“Todos os aspectos do design foram utilizados no desenvolvimento da GravityLight com o foco sempre na aceitabilidade do usuário”, explica Martin. Ele relata que a questão econômica e a durabilidade também foram demandas importantes. “Nossos testes mostraram que a lâmpada vai durar mais de dois anos  se usada quatro horas por noite, oferecendo uma economia potencial de cerca de US$100! Assim, o design visual, instruções, branding, embalagem foram otimizados para transmitir essas qualidades”, revela.

Para Patrizia Bittencourt, a lâmpada é um exemplo de projeto em que o designer se coloca no lugar do outro. “O mesmo binômio design-empatia é o que faz designers criarem produtos baseados em na abordagem do Human Centered Design, abordagem avançada do design como processo de criação que considera necessidades profundas das pessoas”, conta.

As luminárias criadas no projeto com os índios
Yawanawás foram expostas em Milão.

Design e empatia
A união de designers com comunidades e artesãos vem gerando projetos como o Ñandeva, de resgate do artesanato tri-nacional em Foz do Iguaçu, na fronteira com Paraguai e Argentina. A iniciativa é do Sebrae do Paraná e de várias entidades do Brasil, Paraguai e Argentina, que promove a capacitação e a melhoria dos produtos desenvolvidos por artesãos e também incentiva a descoberta e valorização de identidades culturais da Tríplice Fronteira.

A partir de uma pesquisa desenvolvida por historiadores e antropólogos, com base em elementos como flora, fauna e arquitetura da região, o Sebrae/PR e a Itaipu Binacional lançaram o livro “Elementos da Iconografia das Três Fronteiras”. O livro serve de referência para os 300 artesãos que participam do Ñandeva.

“Eu digo que há um binômio design-empatia que é o que faz a interface entre um artesão (que conhece a técnica e tem a habilidade com os materiais) com um designer (que incorpora a estética e novas funções), cujo resultado, baseado na admiração mútua e na postura de se colocar um no lugar do outro, pode ter resultados inacreditáveis”, afirma Patrizia.

O instituto também desenvolveu diversos produtos em conjunto com
a comunidade de Várzea Queimada no sertão de Piauí.

Para o arquiteto Marcelo Rosenbaum, em entrevista à Casa Vogue, somos uma nação riquíssima em conhecimentos, sabedorias milenares, que devem ser motores para nossa economia criativa. “Valorizar as pessoas, proporcionando a elas sobrevivência e liberdade, são bases da sustentabilidade. Não adianta mais consumir por consumir. O mundo todo está em busca de propósitos nas atitudes”, afirma Marcelo. Ele está à frente do  Instituto A gente transforma que, em parceria com uma rede de instituições e associações, vem viabilizando a transformação de comunidades a partir do produto artesanal.

O Instituto desenvolveu projetos com os índios Yawanawás, na aldeia Nova Esperança. Eles criaram conjuntamente uma linha de luminárias que representa a sabedoria milenar do grupo que vive às margens do rio Amazonas. Eles desenvolveram também um projeto em conjunto com a comunidade de Várzea Queimada, no sertão do Piauí. A proposta era descobrir, através do artesanato, os valores essenciais daquela comunidade para que ela se apropriasse de sua memória cultural e ao mesmo tempo pudesse gerar renda para o local.

“Em Várzea descobrimos o nosso verdadeiro jeito de trabalhar e começamos a amadurecer a ideia do design essencial como metodologia de trabalho. Aprendemos com a comunidade a trabalhar em conjunto, a entender melhor a história de seus antepassados, a compartilhar saberes e entender o valor da cultura ancestral como algo sagrado” (trecho retirado do site do projeto: rosenbaum.com.br)

Em entrevista ao Estadão Marcelo explica que a missão do instituto é gerir o relacionamento com as comunidades, zelar por seus direitos de propriedade, conhecimentos e repartição de benefícios, gerando fluxo econômico e, ao mesmo tempo, garantindo a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial de cada região.

 

A proposta do projeto foi traduzir os valores da comunidade,
gerar renda e valorizar a memória cultural do local.

Enquanto se discute Uber…
O projeto Taxi Fabric é uma mudança criativa para os 55 mil veículos de táxi em Mumbai (Índia) que são transformados em obras de arte móveis. Um grupo de criativos se reuniu com designers indianos para criar inúmeras estampas, que contam histórias de seu povo e de sua cultura. As padronagens foram impressas em tecido e costuradas em cada táxi.

“Os táxis na Índia, particularmente em Mumbai, são a forma mais conveniente de transporte, mas também se tornaram uma peça icônica da cultura. Os taxistas costumam dar muita atenção aos seus carros para se sobressaírem diante de seus concorrentes (decoram janelas de vidro, adicionam luzes brilhantes), mas pouca atenção é dada ao tecido utilizado nos assentos. Eles são muitas vezes apenas funcionais e esquecidos. E se os inúmeros jovens designers talentosos oferecessem algo nesse sentido?”, questionou a equipe no site do projeto.

O Taxi Fabric criou então um espaço para artistas e designers mostrarem suas obras no interior dos táxis com ilustrações muito coloridas para criar impacto, se conectar com o público e ainda contar histórias do local.

Em Várzea da Palma, Marcelo Rosenbaum e sua equipe desenvolveu
a ideia do design essencial como metodologia de trabalho.

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