Uma profissão de futuro

Lala Deheinzelin fala sobre papel do design
na maior transição da história da humanidade

por: Pâmilla Vilas Boas

Futurista, pioneira em economia criativa e colaborativa, Lala Deheinzelin criou e coordena o movimento internacional “Crie Futuros” com visões e métodos para criação de futuros desejáveis que integram economia criativa, desenvolvimento, sustentabilidade e inovação. Ela foi indicada pela P2P Foundation, principal organização global que trabalha com economia e sociedades colaborativas, como uma das 100 mulheres que estão cocriando a Sociedade Colaborativa. Lala é autora do livro “Desejável Mundo Novo” e membro do conselho do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC/ SP, que representa, no Brasil, o “Projeto Millennium” da Universidade das Nações Unidas.

Em seu canal no youtube, Lala criou a personagem Íris N1SpirAll, que vive em 2050 e nos apresenta o modo de vida e os comportamentos das pessoas da época. Veja a web série aqui:

Para a estudiosa, em 2050, existirá uma diversidade muito grande de designers e sua principal função estará ligada a visualização de dados num processo de cogestão.  Para a autora, essa transição que estamos vivendo nos torna, a cada dia, mais coautores do mundo e, portanto, designers. Além de ser uma profissão de futuro, o design é uma profissão que garante o futuro. “O designer será o órgão de percepção da sociedade. Ele será ainda mais essencial”, prevê.

 

Qual o papel do design na transformação da economia atual para as economias do futuro (Criativa, Colaborativa, Compartilhada e Multimoedas)?
O grande desafio do mundo é o fato que estamos numa transição de uma economia baseada no consumo de coisas tangíveis, materiais, que não se renovam, para uma nova economia baseada em intangíveis, como na economia criativa e nas possibilidades de compartilhamento e otimização por tecnologias (como acontece na economia compartilhada e colaborativa). É a transição da economia do consumo para a economia do cuidar, que está na essência do que é design. Porque design é como eu faço melhor; cuido melhor de quem usa o produto ou serviço que estou desenhando; assim como do ambiente com aquilo que estou desenhando; como posso desenhar novas relações pessoais, profissionais, empresariais, como eu desenho novas formas de gestão colaborativa e integrada.

Essa otimização não é possível sem o design. A ideia do que é design e quem é designer vai se ampliar muito. Toda pessoa vai ter que ser um pouco designer e os designers serão, a cada dia, mais importantes, porque eles terão que  compartilhar o olhar sistêmico de funcionalidade, cuidado, valor agregado. O design é uma forma de traduzir em matéria todas as coisas que representam uma sociedade. Além de ser uma profissão de futuro, é uma profissão que garante o futuro.

 

 

Por que estamos passando pelo período de maior transição da história da humanidade? Qual o papel do design nessa transição?
Porque a internet nos colocou em outro espaço. Imagina que vivíamos uma vida em 3D, em que tudo o que conhecíamos era altura, largura e profundidade, tudo o que a gente sabia era operar de uma forma linear, falando com as pessoas que estão próximas e, de repente, fomos transportados para uma dimensão acima, onde estamos fora do tempo e espaço. Podemos falar e interagir com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, em tempo real, assim como trocar bens, informações e produtos. Isso é uma mudança tão extraordinária que é difícil de perceber.

Vai ficando mais evidente que não somos vítimas do mundo, mas coautores. E, ser coautor é ser designer. No mundo anterior, newtoniano, de causa e efeito, linear, nós nos sentimos mais vítimas, mas nesse mundo da internet, em rede, em tempo real, quântico, complexo etc, não cabe mais essa visão. Para mim, o designer é muito mais do que aquele que desenvolve um produto interessante; ser designer é pensar como as coisas se organizam no mundo, é saber que cada momento de nossa vida (família, trabalho, cidade, política) depende também da gente. Ser designer é um estado, é se perceber como coautor do mundo.

Você acha que o design atualmente ainda está mais preocupado com a indústria criativa do que com a economia criativa? Como mudar esse quadro?
Sim, o designer está mais preocupado com a indústria criativa, ou seja, com o conceito mais antigo e limitado  de um produto belo e original. Claro, tudo o que fazemos precisa ser belo, prático e original, mas é muito mais do que isso. Economia criativa é uma visão de design aplicada não só aos setores criativos tradicionais, como moda, arquitetura, objetos, mas a qualquer tipo de processo intangível. Se não quero apenas vender ovos, mas quero que meus ovos tenham um diferencial, vou ter que ser uma designer de processo, para que meu ovo seja da galinha feliz; um designer de produto para que minha embalagem seja feita com materiais recicláveis; um designer de comunicação, para que a maneira como comunico os ovos da galinha feliz possa inspirar as pessoas a também serem felizes em seu cotidiano e assim vai. Ou seja, existe um caminho de ampliação do papel do designer. Mudamos esse quadro mostrando essa visão mais ampla do que é design e, sobretudo, mostrando as transformações culturais, sociais e ambientais que o designer pode trazer. Se resultado é só financeiro, então designer é aquilo que permite o produto ficar mais caro. Se enxergarmos resultado cultural, social e ambiental,  design passa a ser aquilo que leva o produto ou serviço a ter diferença para muita gente e possa dar resultado em todos os aspectos da sociedade.

 

Como você enxerga o profissional de design em 2050?
O design talvez seja o que mais pode contribuir para integrar disciplinas numa visão sistêmica. Ser designer é compreender as relações e o fluxo que existe entre as diversas áreas.  Em  2050, o designer estará em todas as equipes e qualquer processo terá sempre esse profissional, além de existir uma diversidade muito grande de designers. Em 2050 as funções principais estarão ligadas a visualização de dados, porque viveremos num processo de cogestão. Nesse novo mundo, a política já não é mais uma democracia representativa, e sim participativa. A população enxerga tudo o que está acontecendo. Os fluxos do orçamento público e de informação, trânsito, saúde, transportes, alimento, tudo isso estará visível em elementos gráficos na internet, que mostram os dados não como uma lista de páginas enfileiradas, mas como uma cartografia em movimento, no qual percebemos como a informação se organiza. Em todos os lugares existem esse sistema de visualização de dados e o designer ajuda a perceber melhor o que está acontecendo. O designer será como o órgão de percepção da sociedade. Ele será ainda mais essencial.

 

 

 

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